inéditos

Notas sobre uma pequena invasão bárbara

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Por André de Leones *

Abril, 28

Ele não tem dormido bem, e uma gripe se instalou há alguns dias, meia gripe, que não o arrebenta de vez e tampouco o deixa em paz. Sentado em uma sala de embarque em Cumbica, estica as pernas e respira fundo, o tema de Era uma vez na América voejando na cabeça, o que é estranho (pensa), pois não revê o filme há tempos. Quando foi a última vez? Há um ano, talvez. Ou dois. Não se lembra. Quando anunciam o voo, ele respira fundo outra vez, mas não se levanta de imediato. Ele não tem dormido bem, o corpo e a cabeça tão enevoadamente distantes que parecem ser de outra pessoa. A caminho do aeroporto, tão logo entrou no táxi, pediu ao motorista que encostasse alguns quarteirões à frente, precisava sacar algum dinheiro, não tenho com o que pagar pela corrida. Entrou e saiu do banco o mais rápido que pôde, feito um assaltante calejado, John Dillinger à solta na Mooca, e se deparou com o taxista esfregando o rosto com as duas mãos. Teria fechado o porta-malas na própria cara. Ele se perguntou como é possível, mas não disse nada. Quer ir ao médico? Pego outro táxi. Não, respondeu o sujeito, um inchaço na testa, algum sangue, os dois olhos bem vermelhos, vam’bora. Tentava sorrir, mas a dor parecia intensa. O voo é tranquilo. Filmes, vinho. O corpo se ressente da meia gripe e das longas horas sentado. Vê um documentário sobre Robbie Fowler e se arrepia com o Kop rugindo, e se lembra por que está aqui. E, alta noite, dentro da enorme caixa de metal com asas, meio doente e cansado, apesar de, ele sente o corpo e a cabeça menos distantes, ele se sente ele mesmo pela primeira vez em um bom tempo.

Abril, 29

A oficial da imigração não faz muitas perguntas. Sorri quando ele explica a razão maior de estar ali, depois começa a rir, seu time perdeu ontem, querido. Ele não sabia. Estava no avião. Ela se diz torcedora dos Spurs. No metrô, a caminho do hotel, na longa viagem Londres adentro, ele vê num jornal aberto à sua frente: Hull City 1×0 Liverpool. Ele suspira, e então pensa: Foda-se. Eu estou aqui. Está frio e chuvoso e venta muito na Russell Square. Ele caminha. Eu caminho apressado até o hotel. É bem cedo. O quarto é maior do que esperava. Tomo um banho, ligo a televisão. Cedo, muito cedo. Cochilo por algumas horas. Meio-dia quando afinal deixo o quarto. No meio do interminável corredor que atravesso, rumo aos elevadores, uma pequena porta leva ao que parece ser o refeitório dos funcionários. O lugar está lotado. Orientais sentados às mesas, almoçando. Falam sem parar. Riem. Não ouço a língua inglesa, até que um deles se dirige a mim: Are you lost? Eu sorrio para ele, e então volto ao corredor. Contorno a Russell Square e desço pela Montague até o British Museum. Viro à direita na Great Russell. Pequenas multidões compactas à frente do edifício. Adentro o museu. Alemães, franceses. Parecem apressados, mas quem não consegue ficar muito sou eu. Volto à rua. Sigo pela Great Russell até a Tottenham Court, e dali até Giles Circus. Então, é a Charing Cross. Compro um guarda-chuva e uma boina ridícula. O vendedor ri da minha cara. Peço um desconto. Ele nega. Digo que estou resfriado. Ele fala de uma farmácia acolá. E depois ri mais um pouco. A chuva não para. Lá embaixo, na Trafalgar Square, a Coluna de Nelson me dá as costas. Adentro a National Gallery e saio três horas e meia depois para um dia ensolarado, a praça tomada por artistas de rua, estátuas humanas, orientais histéricos e paus de selfie. Corro e me escondo numa livraria. São quase cinco da tarde e não comi nada o dia todo. Vejo o cartaz de uma peça de David Mamet, American Buffalo, com Damian Lewis (torcedor do Liverpool, a scouser born and bred) e John Goodman. Entro num pub chamado Round Table, numa ruela cujo nome esqueci. Peço um pint de London Pride. Quando termino, peço outro e fish&chips. Meus olhos ardem de sono e gripe. A garçonete italiana pergunta o meu nome, de onde venho, o que eu faço. Diz que um brasileiro já trabalhou ali. De onde ele era? Porto Alegre. Digo que Porto Alegre não fica no Brasil, e fico feliz que ela entenda a piada. Uma hora e meia depois, banho tomado, e sem a maldita boina na cabeça, pego o metrô na Russell Square. Desço na estação da Holloway Road. Entrevejo o Emirates Stadium adiante, mas sigo na direção contrária. Caminho bastante até o pub de um camarada turco, amigo de uma amiga, The Bedford Tavern, Seven Sisters Rd. Os dois me esperam a uma mesa. Seis pints de ales diversas e duas doses de Germana (sim) depois, o turco só me cobra por um pint, agradece pela companhia e me expulsa dali com um abraço, como Hemingway teria feito com Montale (embora, na ocasião, apenas Hemingway estivesse bêbado e/ou ressacado). Descubro que a estação mais próxima do pub é a de Finsbury Park. Volto sozinho e cantarolando para o hotel. Penso num poema que terei esquecido pela manhã, felizmente.

Abril, 30

Caminho até a Tate. Dois quilômetros e meio, quase três. Cruzo o Tâmisa pela Waterloo Bridge. Fico por quase uma hora na sala com os Rothko. E mais um bom tempo diante de um Lucian Freud. O dia escorre em meio às telas. Não gostaria de estar em nenhum outro lugar. Janto num restaurante italiano a poucas quadras do hotel, na Southampton Row. A garçonete pergunta o meu nome, de onde venho, o que eu faço. Mexicana. Sou do Brasil. Ela abre um sorriso e me pergunta, em espanhol, por que fugi de lá. Eu rio alto, e essa é a minha resposta.

Maio, 1º

Na British Library, vejo uma Vulgata do século IX, um manuscrito de Locke e uma peça de Marcadé, século XIII. E uma Torá também muito antiga, não me lembro de que século. O Livro não é D’us, claro, mas os meus pulmões se enchem de ar.

Maio, 2

A viagem de trem até Liverpool é confortável. Meu vagão está quase vazio. Durmo um pouco. Chove e faz muito frio na cidade. Deixo as malas no hotel e volto à rua. Tomo um pint de Guinness no pub do Crown Hotel. Ainda faltam umas quatro horas para o jogo. As caixas de som despejam Be my baby no lugar. Uma garçonete canta com as Ronettes e pisca o olho para um freguês que está ao balcão, um velhinho trajando um agasalho igual ao de Shankly. Peço outro pint e o café-da-manhã. Sento a uma mesa para comer. Uma avassaladora sensação de familiaridade toma conta de mim, algo que só senti antes em Jerusalém, seis anos atrás. Anfield. A multidão toma as ruas próximas do estádio. A cor vermelha. Pego meu ingresso e caminho até o portão designado. Lá dentro, sento e olho para o gramado, depois para o Kop. A hora seguinte voa. O lugar se enche bem rápido. Os times entram em campo. Estou, estamos todos em pé. You’ll never walk alone parece brotar da ossatura do lugar, do próprio concreto, e é como se fôssemos apenas os instrumentos, o meio de a música ascender e se fazer ouvir. Depois, preciso de alguns minutos para conseguir me concentrar no jogo. Coutinho mete um golaço, mas o time segue descompensado, com Johnson errando miseravelmente (no que os torcedores do QPR cantam, com ironia: You’re so lovely…). Fer empata o jogo em meados do segundo tempo. Gerrard erra um pênalti, mas nos salva com um cabeceio similar àquele da final da Champions League, há dez anos. Sinto um nó na garganta quando me ocorre que posso ter visto seu último gol em Anfield. As ruas são de novo tomadas pela multidão vermelha. Eu me sinto tão feliz que decido ignorar a chuva e o frio e caminhar de volta para o hotel. Alguns cantam: Steve Gerrard, Gerrard / He passes the ball fourty yards / He’s big and he’s fucking hard / Steve Gerrard, Gerrard. É como se o chão que pisamos estivesse eletrificado e nos reacendesse, pois logo todos cantamos. A sensação é ainda mais forte depois, quando adentro um pub tomado por vermelhos. Lá pelo terceiro pint, alguém pergunta se atravessei a porra do oceano só para ver o jogo. Respondo que atravessaria a nado, se precisasse. Logo, estou fraternalmente cercado por iguais. Um deles berra no meu ouvido que, se sou um torcedor de verdade, devia cantar Fields of Anfield Road. Começo (Outside the Shankly Gates / I heard a Kopite calling…), e logo estão todos cantando (berrando), pulando, cerveja atirada para tudo que é lado. Me empurram, me abraçam, me puxam os cabelos, me beijam as bochechas. Andre, you’re so fucking lovely. Tenho cerveja nos cabelos, nas roupas, no espírito. You’re so lovely / You’re so lovely. Pois é. We had dreams and songs to sing / Of the glory, round the fields of Anfield Road. E eu nunca vou caminhar sozinho (até porque a essa altura talvez não conseguisse).

Maio, 4

Dou um pulo em Amsterdam, e estamos em pleno Dodenherdenking. Passeio, bebo e como por lá. Em geral, os holandeses são sorridentes e simpáticos, mas sem aquele ranço pegajoso dos cariocas. No fundo, estão cagando para você. Acho ótimo. Num boteco da Rozengracht, o garçom espanhol tenta me tirar. Um brasileiro que aprecia Guinness?, ele diz, na língua de Natalia Zeta. Está fazendo graça para umas meninas que estão por ali, cacarejando. Sua mãe quem me doutrinou, respondo. Ele pergunta se já fui ao Red Light District. Retruco que parei de pagar por sexo aos treze anos. Bebo mais um pint, um silêncio tenso tomou o lugar. Saio com um tremendo sorriso VSF na cara, e não deixo gorjeta.

Maio, 5

No voo de volta a Londres, o avião chacoalha desgraçadamente. O sujeito ao lado entra em pânico e grita que é jovem demais para morrer. Pergunto quantos anos ele tem. Quarenta e dois. Eu: Fine! I’m 35. Estou sorrindo sacanamente, não sei o motivo, pois sinto tanto medo quanto ele. O cara olha para mim, aterrorizado: Aren’t you scared? Faço uma careta e respondo: I’m a Liverpool supporter. I’m used to be scared.

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André de Leones é autor do romance Terra de casas vazias (Rocco), entre outros. Weblog: vicentemiguel.wordpress.com.

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